Falha no sistema e desonestidade permitiram que milhões de jovens da classe média recebessem o auxílio emergencial

O TCU afirma que a causa para milhões de jovens da classe média alta terem recebido foi uma falha no sistema. Mas não é só uma falha tecnológica que pode explicar os pagamentos indevidos

O auxílio emergencial no valor de R$ 600 é no momento o único recurso que milhões de famílias das classes menos favorecidas têm para sobreviver numa sociedade de desiguais. Como se sabe, o Brasil é uma das sociedades com altas taxas e índices de desigualdades.

O momento atual de pandemia do novo coronavírus é visto por muitos como uma oportunidade para o questionamento mais contundente de valores tradicionais e a ampliação de outros, como o valor da solidariedade. Muitas têm sido as ações de solidariedade pelo Brasil, onde redes de ajuda criam sistemas sociais de cooperação.

Mas a realidade tem o seu lado também trágico. Muitos estão aproveitando a pandemia para ações que denunciam o quanto o ser humano pode ser pequeno. Ontem o ministro do TCU (Tribunal de Contas da União), Bruno Dantas, declarou que milhões de pessoas que não deviam estão recebendo o auxílio emergencial do governo federal.

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“Milhares ou milhões de filhos da classe média alta que são dependentes de pessoas que declaram seu imposto de renda estão recebendo o auxílio emergencial por falta desse cruzamento elementar”, disse ontem o ministro.

Ele atribuiu a causa desses pagamentos indevidos a incapacidade do sistema do governo federal em estabelecer de maneira eficiente o cruzamento de dados das pessoas que declaram imposto de renda. Mas não é só isso!

É vergonhosa a situação de quem mesmo não tendo a necessidade do auxílio emergencial e não preenchendo os requisitos para o cadastro estar recebendo o auxílio federal.

O que deveria ser também destacado pela imprensa e ter recebido uma ênfase maior por parte dos órgãos do governo, além da própria falha na operacionalização do sistema, é a desonestidade de quem fez uso do auxílio sem necessitar ou ter o direito.

Será uma ingenuidade achar isso? Talvez. Em tempos líquidos, conforme nos descreveu Bauman, o valor da honestidade, dentre outros, perdeu a sua praticidade.

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Trata-se de uma imoralidade por dois motivos. Uma é que com a inclusão do nome no sistema, outras pessoas que realmente precisam do auxílio e que por muitos motivos não conseguiram entrar no sistema deixaram de recebê-lo.

O outro motivo é a atitude de cadastrar (e conseguir) o nome no sistema mesmo tendo a consciência de que não tem o direito. Além de uma imoralidade, trata-se de um crime e que precisa ser punido nos moldes da lei.

Esse é o Brasil, um dos países mais desiguais do mundo e, infelizmente, com um bocado de gente desonesta.

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