O antagonismo programático levará o Brasil à guerra civil

A categoria do antagonismo programático sempre foi vista como aceitável pelas forças políticas brasileiras, mas chegou num pico perigoso, indicando que a ruptura social está próxima de ocorrer

Não se pode negar que atualmente o Brasil passa por uma exacerbação das polarizações programáticas que dominam os cenários políticos brasileiros há décadas. Até a vitória de Dilma Rousseff (PT) em 2014, a polarização vigente era entre PT e PSDB – essa polarização, segundo a narrativa petista, transcrita a negação da derrota do PSDB, levou os caciques do partido da social-democracia a iniciar o processo de impeachment.

Quando me refiro ao fenômeno da polarização programática trabalho com a categoria do antagonismo entre blocos programáticos alimentado por diversos elementos do campo político. Trata-se de um fenômeno que não é novo mas que ultimamente adquiriu proporções consideráveis.

Em outros termos, a rivalidade programática, que engloba a ideológica, sempre foi socialmente aceita no campo político, mas sob determinada formatação. É como se houvesse um pacto implícito entre as forças políticas para que o antagonismo programático existisse sob determinados limites.

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A polarização vigente no Brasil é entre o bolsonarismo e o antibolsonarismo. O bolsonarismo passou a ter vida própria depois da vitória de Jair Bolsonaro na eleição de 2018 e as suas pautas programáticas foram forjadas, em grande parte, no interior do que se costuma denominar de antipetismo.

O antipetismo é um fenômeno complexo. Porém, de modo amplo é caraterizado como a aversão social ao Partido dos Trabalhadores (PT), sendo as críticas dirigidas às decisões governamentais do partido enquanto no poder, além da repulsão às concepções ideológicas do partido no campo moral e social.

Entre outros, é [o antipetismo] elemento fundante do bolsonarismo, sendo ainda um ativo ideológico do seu programa. Mas o bolsonarismo, como disse anteriormente, adquiriu autonomia, uma vida própria. Ele é mais agressivo do que o antipetismo, pois embora menor em termos de número, é mais organizado e barulhento. O bolsonarismo, enfim, conseguiu extrapolar o âmbito institucional, se manifestando em nichos da sociedade civil.

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O bolsonarismo vem dando claros sinais de que uma ruptura social não deve ser tratada como improvável – é essa a narrativa dos ingênuos – ou como impossível – esta é a fala dos militares das Forças Armadas nacionais.

Na realidade o risco de uma ruptura é grande – tanto o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, General Heleno, quanto o próprio presidente Bolsonaro, assim como o seu filho, falaram da provável ruptura social. Apesar de representantes das Forças Armadas afirmarem de que é impossível as mesmas apoiar uma ruptura social, não custa não confiar plenamente nessa ponderação.

Desde ontem (30) os ânimos ficaram acirrados. O grupo “300 do Brasil”, liderado pela ex-feminista Sara Winter, fez um simbólico protesto pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Simbólico na medida em que fez uso de signos de ideologias supremacistas. Sara Winter foi alvo da PF na terça-feira, no âmbito do inquérito que investiga uma rede de produção e divulgação de notícias falsas.

Protesto dos “300 do Brasil” contra o STF
Foto: Reprodução

Talvez hoje (31) os atos pró e contra o governo Bolsonaro, ocorridos na Avenida Paulista, em São Paulo, e em outras capitais, evidenciaram o pico (até o momento) do antagonismo programático entre o bolsonarismo e o antibolsonarismo.

Em São Paulo, membros de torcidas organizadas se juntaram para protestar contra o governo Bolsonaro e à favor da democracia, enquanto os bolsonaristas protestavam contra o STF e pediam respeito à Constituição Federal e a defesa da liberdade de expressão.

Com a tensão lá em cima e qualquer espírito republicano para reconhecer que numa democracia as manifestações políticas são legítimas e que qualquer indício de práticas contrárias ao ordenamento jurídico caberá ao Judiciário punir, bolsonaristas e antibolsonaristas entraram em confronto entre si e os últimos contra a Polícia Militar de São Paulo.

Em São Paulo, torcidas pedem democracia
Foto: Reprodução

Já no Rio de Janeiro a PM atirou bombas em cima da torcida do Flamengo antifascista. Se no Rio o governador esteve alheio, vez que se encontra enrolado por supostos esquemas de desvios de dinheiro público, o governador de São Paulo, João Dória, disse que os policiais são heróis e que serão homenageados.

Os acenos são de que o Brasil está a beira de uma guerra civil. O antagonismo programático atual é mais violento do que os anteriores e que não haverá tão cedo o seu arrefecimento. Pelo contrário, a tendência é aumentar a partir dos desdobramentos das decisões que as instituições públicas, sobretudo o STF e o TSE.

O antagonismo programático, me parece, levará o Brasil à guerra civil.

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