“O negro se pesa em arrobas”: o enfrentamento historiográfico dos preconceitos históricos

Ontem foi o “Dia da Consciência Negra”. Comemorado no dia 20 de novembro, é também chamado de “Dia do Zumbi”, em referência ao herói do Outeiro do Palmar, que foi um dos principais líderes da estrutura social, política, econômica e cultural do Quilombo dos Palmares.

Entretanto, a finalidade deste editorial não é necessariamente historiográfica, o que implicaria uma abordagem dos aspectos econômicos, culturais e políticos do Quilombo dos Palmares e como se caracterizaria a sua influência na dinâmica política do império português do século 17 no nordeste.

Na verdade, o que se pretende é discutir sobre um fenômeno que vem ganhando força nos últimos anos e que se acentuou – para não dizer que perdeu o pudor – com a vitória de Jair Bolsonaro na recente eleição presidencial.

O fenômeno mencionado diz respeito aos fortes movimentos setoriais de direita para a desconstrução das narrativas utilizadas pela esquerda ao entendimento da história do Brasil. Não precisamos entrar nas miudezas destes movimentos, mas, certo é que ele poderá causar o desaparecimento de uma memória história popular e comprometida com os movimentos sociais libertários e que em seu lugar surgirá um conjunto de metarrativas alinhado ao liberalismo, ao preconceito e a segregação.

Vejamos o caso de Zumbi dos Palmares. Todos os anos – e este com maior expansividade – o mesmo é objeto de pilherias e de posturas preconceituosas, numa clara tentativa de desconstrução de sua memória e da sua relevância à história brasileira.

A partir de fragmentos historiográficos limpidamente com viés ideológico de direita, pululam os escritos voltados à desconstrução das lutas dos negros do Palmar e consequentemente de outros movimentos e personagens que tanto contribuíram a historiografia da negritude brasileira.

As redes sociais se caracterizam como a plataforma principal desta campanha de desconstrução, onde se utilizam de posturas histórico-metodológicas frágeis para a construção textualmente com a finalidade de dominação.

Fato é que o enfrentamento a tudo isto precisa se dar a partir do reconhecimento da alteração conjuntural da política brasileira. Em outros termos, os blocos de esquerda – ou boa parte dela – agora precisam ser oposição efetiva; e uma das principais formas de enfrentamento político precisa ser no campo da produção da história e da memória.

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