Os sonhos do Areópago de Itambé

O historiador pernambucano Manoel Correia de Andrade rompeu, em 1965, a calma que planava sobre a historiografia cabana. O silêncio foi intencional, uma engenharia de uma sociedade que sempre escondeu o poder, as causas, as possibilidades e os desdobramentos dos movimentos cabanos, importantes fulcros de lutas sociais no Nordeste durante o século XIX e que, atualmente, perduram nas lutas de diversos segmentos e coletivos sociais pela busca de justiça social.

Nesse contexto, o livro “A Guerra dos Cabanos” se apresenta como um clássico da historiografia cabana e, sobretudo, como o primeiro a superar a lacuna historiográfica, engenhosamente arquiteta, e que perdurou por mais de cem anos, visando colocar as lutas cabanas no esquecimento.

Para Manoel Correia de Andrade, a compreensão das batalhas cabanas se daria a partir da reprodução, comparativamente, de uma das atividades do especialista em arqueologia, que é a escavação arqueológica. Só que esta escavação seria no campo do saber e dos fatos históricos. De tal forma, para entender a Guerra dos Cabanos seria preciso ir às suas origens, buscar os fatores que se encaixam adequadamente na tessitura dos fatos cabanos.

Sendo assim, Andrade afirma que a inserção e o espalhamento de concepções liberais na Capitania de Pernambuco, no século XIX, será um fator fundamental à configuração histórico-ideológica para o movimento cabano na década de 1830. Neste ínterim, cumpriu papel importante no espalhamento do pensamento liberal Arruda Câmara e o seu famoso Areópago, em Itambé, onde, secretamente, difundia ideias de liberdades, igualdade e solidariedade numa sociedade profundamente desigual.

Outro canal fundamental ao espalhamento das ideias liberais foi o Seminário de Olinda. A espacialidade do mesmo compelia sob a égide do Bispo Azeredo Coutinho à produção de conhecimento e de saberes progressistas à época. Da mesma forma, o engenho Suassuna, que era propriedade de Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, servia como espacialidade de espalhamento de ideias e de concepções nocivas à época.

Pode-se afirmar que o sucesso da fixação de concepções liberais em muitos ambientes sociais da Capitania de Pernambuco se efetivou não apenas pela complacência e afinidade de autoridades políticas aos liberais, como também a profunda insatisfação de parte do baixo clero, de militares e de comerciantes brasileiros.

Estes segmentos sociais possuíam as suas próprias razões para querer ver o fim da configuração social da época, desde motivações estritamente econômicas até aspirações políticas. Com a exceção de parte de proprietários de engenhos e de vultosos latifundiários, as aspirações libertárias foram oxigenadas por segmentos urbanos.

Assim sendo, com Manuel Correia de Andrade se estabeleceu o saber histórico de que a maçonaria foi fundamental para a produção e a reprodução de concepções políticas, culturais e econômicas que divergiam do status quo vigente e que tenciona desestabilizar as suas bases, sendo, inclusive, essenciais as revoluções no território Pernambuco em 1817 e em 1824.

O Areópago de Itambé, que divisava as capitanias de Pernambuco e da Paraíba, foi essencial ao fomento de ideias de libertação do território brasileiro do jugo português, assim como se caracterizou como defensora da abolição.

O governo da Província de Pernambuco ordena o fechamento do Areópago de Itambé pela acusação de planejar sedições contra a ordem e o poder central. Os seus membros, então, se dividem entre a Academia de Suassuna e a Academia do Paraíso.

Foram estes membros que mais tarde lideram os principais postos durante a Revolução Pernambucana de 1817, que visava estabelecer um Brasil republicano, livre da escravidão e promotor de igualdades.

Facebook Comments
Please follow and like us:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *