Família Gomes de Lima

Desde a consolidação da Nova História, que tem como mote a interdisciplinaridade, pesquisadores da ciência histórica tiveram à disposição uma miríade de métodos e de componentes no cultivo epistêmico- historiográfico.

É neste contexto que a imagem, enquanto objeto, possui status de documento que de vez se constituiu em fonte relevante para a gestação do conhecimento histórico. Na realidade, cada época revela um conjunto imagético de valores, sentimentos e de estruturas, sendo, assim, possível com o estudo das imagens, tornar inteligível as estruturas sociais.

Assim sendo, a edição desta semana de “História e Imagem” tentará, através de um acervo imagético, revelar à sociedade leopoldinense um pouco da história da família “Gomes de Lima”, que já consolidou nos anais e registros históricos locais a sua marca, impagável, por sinal.

Então, prepare aquele chocolate quente e puxe para perto de si aquela bolacha e acompanhe a edição de História e Imagem da família “Gomes de Lima”.

A família Gomes de Lima

Carinhosamente chamada de Dona Nininha, a Sra. Maria Lúriva Fagundes de Lima nasceu no dia 08 de fevereiro de 1931, na cidade de Maraial, em Pernambuco.

Entretanto, a sua família se instalou no Riacho do Mato, localidade topograficamente próxima do Rio Jacuípe. Curiosamente, foi no Riacho do Mato, que pertenceu e onde viveu o mais famoso cabano Vicente Ferreira de Paula, o homem que motivou a instalação da Colônia Militar, no distante ano de 1852, que a guerreira Nininha passou os seus primeiros anos.

Logo à frente, veremos que, respeitadas as devidas assimetrias, a história da família Gomes de Lima representou, comparativamente, às lutas travadas pelo cabano Vicente de Paula em busca de liberdade e de melhores condições de vida para o seu povo.

O pai de Nininha, o Sr. Antônio Fagundes, foi dono de barracão por muitos anos e também exercia o ofício de sapateiro em Riacho do Mato e depois em Colônia Leopoldina.

Quando tinha os seus 10 anos de idade, a família se mudou para a cidade de Colônia Leopoldina, quando os seus membros foram morar na Rua do Alto, próxima a Padaria de Zé Carneiro. “As casas da época eram de taipas e nas ruas não tinha nenhum calçamento”, me relatou dona Nininha. “Neste tempo o grande chefe politico era o Sr. Alfredo de Paula, que era o dono do Engenho Santo Antônio”, sendo que “antes dele quem dava as ordens era o Dr. Osvaldo Gomes de Barros”, frisou.

A nossa heroína, em 1949, foi nomeada funcionária da Câmara Municipal de Colônia Leopoldina, quando ocupou o cargo de arquivista, se responsabilizando, dentre outras atividades, pelas correspondências, protocolos e arquivamentos de documentos do parlamento leopoldinense. Ressalta-se que o prefeito era Alfredo de Paula e o presidente da Câmara era Sérgio Muniz de Araújo.

Contrariando décadas antes o que afirmaria Bourdieu, o envolvimento das ‘Fagundes’ com a atmosfera política, desde cedo, era um indício de que elas tinham a política na alma.

Os olhos de Nininha brilham ainda mais quando fala do Hotel Santa Terezinha. O Hotel Santa Terezinha era frequentado por muita gente do meio político da época, como o Arnon de Melo (senador por Alagoas), Muniz Falcão (governador de Alagoas), Cap. João Bezerra, dentre outras personalidades públicas.

“Era um tempo muito bom, um tempo muito rico; a cozinha era de tábua, e Milton Caetano matava os porcos lá para as cozinhadas”, me confessou Nininha, ao recordar aquele tempo. “Os cavalos das pessoas que chegavam para o hotel, nós levávamos para o Rio do Motor, onde dávamos água e banho neles”, disse Dona Nininha, completando a recordação.

“Nunca me esqueço do que o Sr. Alfredo de Paula pedia para a nossa mãe, que era pra ela colocar as meninas para estudar”, finalizou a lembrança.

Por ora, deixaremos de bisbilhotar um pouco a vida de Nininha; vamos agora entrar na vida do Sr. Zequinha. Mas fique tranquilo, que a nossa aventura apenas está no começo!

José Gomes de Lima, o inesquecível Zequinha, filho de Maria Herculana da Silva e de Sebastião de Lima, nasceu na Rua da Lama, na cidade de Colônia Leopoldina, no dia 05 de novembro de 1928.

Exerceu muitos misteres durante a sua vida. Por exemplo, trabalhou na Padaria Olinda, quando na época o prédio pertencia ao Sr. Zé Lessa e era alugado ao Sr. Izidoro – depois a Padaria Olinda pertenceu ao Sr. Avelino e hoje pertence ao Sr. Ulises.

Ralou ainda na Loja de Tecidos dos Velosos, em Ibateguara; exerceu também o ofício de alfaiate, no prédio onde funcionava a UDN – União Democrática Nacional – ajudando o Sr. Ivanildo. Ressalta-se que naquele espaço não tão somente se discutia política partidária, pois nele se realizavam eventos culturais, como os bailes dominicais.

Zequinha não foi o ‘Homem-Máquina’ de Max Barry, mas que ele gostava de trabalhar, isto ele gostava…!

Assim, trabalhou, em seguida, como modelador de forma de sapatos, na Fábrica de Sapatos de Antônio Santana, que tinha dois estabelecimentos desta natureza: em Colônia Leopoldina e outro em Caruaru. A convite do DNER – Departamento Nacional de Estradas de Rodagem – fez a topografia de toda a área que corresponde, atualmente, a divisa com Pernambuco até a localidade indígena do Cocal.

Ufa! E haja trabalho!

Mas acabaram os trabalhadores do período de solteirice. O homem quando casou com Nininha foi que trabalhou mesmo e, melhor… trabalhou pelo e para o povo. Veremos!

Entretanto, estamos curiosos para saber como Zequinha e Nininha começaram a namorar. E ela nos diz: “via pra cima e pra baixo aquele rapaz potente e que trabalhava na padaria; ele gostava de trabalhar e sempre trabalhou. Foi quando resolvi falar com ele e perguntar se queria casar comigo”. Numa época em que o conservadorismo detinha, em regra, o poder de ditar os comportamentos, Nininha se encontrava à frente do seu tempo, atendendo mais aos reclamos de Afrodite do que os palpites próprios de uma sociedade de controle carola, como bem descreveu Gilles Deleuze.

“Não dá pra contar esta história pra minha mãe”, foi a reação de Zequinha diante do convite de Nininha. O irmão de Zequinha, o Sr. Didi, disse “não deixe ela entrar aqui, pois é do comércio, é povo rico”.

Por sua vez, “aqui não tem ninguém pra casar não, vamos é trabalhar”, disse a mãe de Nininha quando informada pela filha do intento de casar com o jovem trabalhador da Padaria Olinda.

O que podemos dizer do comportamento do próprio Zequinha e de seu irmão, Didi, é o predomínio da mentalidade excludente que, infelizmente, ainda vigora no Brasil, que diz que a pessoa ‘pobre’ não deve se casar com a pessoa ‘rica’. Nininha, no entanto, não estava nem aí para estas chatices que aprisionam os sentimentos e as paixões.

E foi ela – sendo, sem querer, nietzschiana – que ensinou a Zequinha que o que vale na vida é viver! Certa vez, Nietzche disse “aquele que tem um porque para viver, pode enfrentar quase todos os comos”. Mas cá pra nós, Nininha poderia ter dito esta frase à época.

Um dia simbólico para os dois foi 8 de dezembro de 1950. É que, enquanto EUA e URSS estavam travando a Guerra Fria, o clima esquenta e Nininha impõe o dia 20 de janeiro de 1951 para a realização do casamento. A reação de Zequinha foi “não tenho nada”, enquanto a de Nininha foi “eu também não, então vai dá certo”, me relatou a própria.

E assim, no dia 20 de janeiro de 1951, Zequinha e Nininha se casaram na Igreja Matriz de Colônia Leopoldina, às 8 horas da manhã. Naquele dia, “vamos nos casar e trabalhar juntos”, falou Nininha para Zequinha.

Eles começaram a trabalhar abrindo um bar, que fazia às vezes também de lanchonete e depois de um tempo funcionava como sorveteria também. O estabelecimento ficava embaixo ao lado da Câmara Municipal. Domingo era dia de feira e a jovem Nininha vendia enxoval, alumínios (pratos, papeiros de ágata, chaleiras, etc) e outras mercadorias e miudezas.

Com o passar do tempo, a descendência foi se constituindo. E, assim, nasceram José Nilton Fagundes de Lima (Zé Nilton), José Roberto Fagundes de Lima (Zé Roberto), José Marcelo Fagundes de Lima (Marcelo Fagundes), José Iram Fagundes de Lima (Zé Iran), Maria Verônica Fagundes de Lima (Verônica Fagundes) e José Alexandre Fagundes de Lima (Lixandre).

O casal se destacou à época também pelos serviços da Sorveteria Belvedere, onde “Zequinha fazia os seus próprios sorvetes com banhos em chocolates e para onde compramos uma TV, uma das primeiras da cidade”, dedurou orgulhosamente Nininha. O Sr. Zequinha era bom em matemática, conforme nos disse Nininha, e aprendia tudo o que queria. “Certa feita, Caetano Wanderley, irmão do famoso cantor Luiz Wanderley, foi até o alfaiate Severino Rocha e encomendou um palitó; e só de olho, Zequinha fez nos moldes desejados pelo Caetano”, disse Dona Nininha enquanto abria um largo sorriso.

Quem estimulou Zequinha para participar da política foi Nininha. Afeita ao campo político, pois, afinal, o Hotel Santa Terezinha era frequentado por muitos políticos e as conversas eram sobre as dinâmicas políticas. A mãe de Nininha era acostumada a fazer campanhas para Alfredo de Paula, sendo uma das principais articuladoras políticas da época.

Nesse sentido, Nininha se juntou uma verdadeira tropa de guerra para a política de Zequinha, contando com as inesquecíveis Nete Braga, Necí de Pivó, Creuza de Bonifácio, além de muitas outras. Assim, em 1968, o Sr. Zequinha foi eleito vereador pela ARENA, e, em 1973, foi eleito vice-prefeito do comerciante Antônio Lins da Rocha, que foi eleito prefeito.

Concomitantemente, Zequinha desempenhou a função de secretário de administração, e fez muito pelo leopoldinense. Foi a partir do seu excelente trabalho, da demonstração concreta de que é possível governar para os segmentos e as camadas sociais que mais precisam do governo, que Zequinha se legitimava para disputar a eleição para prefeito.

Por sinal, este era o plano do prefeito Antônio Lins da Rocha, que afirmava que Zequinha seria o seu próprio candidato à prefeitura.

Entretanto, o prefeito Antônio Lins da Rocha escolheu outro candidato, chegando a ponto de comunicar ao próprio Zequinha, na residência deste, num jantar.

“Tudo estava montando; Zequinha não seria o candidato oficial, não teria apoio na Câmara e não teria partido para sair candidato”, relatou Nininha, agora com um olhar distante ao lembrar aquela conjuntura política.

Porém, com um tom de satisfação, disse Nininha que “o povo estava com Zequinha; ele saiu candidato pela ARENA 2 e teve apoio de gente importante e de vereadores, como Zé Duda, Sebastião Torres, José Máximo, José Ramalho e do povão”. “Ainda tivemos o apoio da Usina Porto Rico, Geraldo Totó, Nezinho do Bar, Zé Idelfonso, Nino Barbeiro, e mais gente”, completou Dona Nininha.

Na realidade, “o povo escolheu papai porque ele fez políticas eficientes durante o tempo em que foi secretário de administração; ele sempre ajudava o pobre, principalmente o povo carente, o povo pobre da cidade e da zona rural”, confidenciou Verônica Fagundes.

Na eleição em que o Sr. Zequinha foi eleito prefeito, se deu um grandioso embate entre o ‘povão’ e a elite. Enquanto as mulheres faziam, sob a égide de Dona Nininha, reuniões nos povoados, quando conversavam com cada eleitor e cada eleitora sobre as virtudes de Zequinha, Zé Preto, o seu irmão Biu Preto, assim como Neguinho da Onça, Zacarias e Moacir Demésio, faziam as músicas e os respectivos arranjos para Emiraldo e Carminha cantarem nos comícios.

Ah… os fotógrafos oficiais da campanha eram Marco Foto e o jovem Bosco!

A contagem dos votos daquela eleição foi realizada no Mercado Público e acabou na tarde do outro dia, quando o candidato Zequinha ganhou a eleição com 683 votos de diferença. Com efeito, o povo queria Zequinha! “Naquele tempo ninguém dormia durante a contagem dos votos. A gente tinha Amaro Tenente; era ele que ficava vigiando os votos no mercado, para que ninguém sumisse com as cédulas”, explicou Dona Nininha.

“Aquela política foi a política do pé no chão; chamavam os eleitores de Zequinha de pés-de-poeiras, porque foi o povo pobre que acompanhou Zequinha”, se emocionou, Dona Nininha, ao falar sobre este relevante aspecto da campanha.

O prefeito Zequinha exerceu o seu mandato até 1982, em decorrência de uma decisão de Brasília à época, porém que o impedia de disputar a reeleição. No entanto, até os dias atuais, o nome José Gomes de Lima ou Zequinha é legitimamente vinculado como sendo um dos principais administradores que já tivemos em Colônia Leopoldina, pois ele construiu o Hospital, conseguiu a estrada que liga a cidade de Colônia Leopoldina à BR 101, calçou muitas ruas, fez o loteamento da área da Mangueira (arrochada política habitacional para a época), construiu a escola da Usina Porto Rico (foi um promessa de campanha), fez a Creche Castelo Branco, reformou a Praça Dom Pedro II, construiu a escola de Riachão, instalou o posto da TELASA, fez a Praça da Rua Boa Vista, reformou a Casa das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus e reformou a Igreja Matriz.

Uma ação política do governo José Gomes de Lima foi a desconstrução de muitas casas de taipas e a construção em alvenaria. Zequinha foi um prefeito do povo, pois “ele se misturava ao povo; ele dançava guerreiro com o povo e participava das festividades populares”, relatou Verônica Fagundes.

José Gomes de Lima disputou ainda mais duas eleições, sem chegar a ser eleito novamente. Faleceu em 2007, deixando um grande vazio não somente nos familiares, mas em toda a sociedade leopoldinense, pois perdeu um dos principais líderes políticos de sua história.

Confesso que esta edição de “História e Imagem” tem a natureza não apenas historicista de narrar um pouco da família Gomes de Lima, porém, de ser, sobretudo, uma oportunidade para realimentar a alma acerca de que o ente humano quando deseja, é capaz de ser diferente.

Assim como Vicente Ferreira de Paula, líder cabano que lutou por liberdade para negros, índios e melhores condições para os pobres em geral, numa época em que o mandonismo dos senhores de engenho e proprietários de escravos dava o tom, o Sr. José Gomes de Lima lutou para uma sociedade melhor e afastada das desigualdades sociais do seu tempo.

De tal modo, instadas sobre o legado de Zequinha, as últimas frases deste texto, tanto de Dona Nininha quanto de Verônica, expressam, satisfatoriamente, o sentimento que sinto neste instante: “a honestidade e o caráter da pessoa, do pai, do esposo e do político Zequinha; nunca abandonou as pessoas que o acompanhou na política e na vida”, afirmou a sua filha Verônica Fagundes. Por seu turno, Dona Nininha diz que “o maior exemplo de Zequinha é que ele era do povo; ele pensava em cada pessoa que pedia ajuda a ele e ele ajudava sem olhar quem era”.

Crédito: família Gomes de Lima
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2 comentários em “Família Gomes de Lima

  • novembro 11, 2018 em 1:59 pm
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    Obrigada Silvio por está grande homenagem.

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  • novembro 11, 2018 em 2:43 pm
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    Parabéns pelo relato. Acabei viajando na história.

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